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A Vida da Gorduchita

A Vida da Gorduchita

09
Jul18

MC

Era uma vez uma menina, a do meio de 3 irmãos, nascida no seio de uma família nada abastada do vale do Ave.

MC, assim se chamava, era uma menina muito aplicada na escola. Quando terminou a 4ª classe, a professora chamou a mãe e disse-lhe que era uma pena que MC não seguisse estudos. O pai não deixou. Se os outros irmãos não iam estudar, ela também não ia, mesmo havendo quem se tivesse oferecido para suportar os custos.

MC foi então trabalhar. Pequenina e de passo rápido, era rapariga muito trabalhadora e super despachada. Tão despachada, que o patrão teve dúvidas em automatizar o processo que ela desenvolvia, por achar que a máquina dificilmente seria tão rápida quanto ela.

MC casou tarde para a sua geração. Subiu ao altar aos 24 anos. Foi mãe pela primeira vez aos 25, na véspera do primeiro aniversário de casamento. 

Nos 15 anos seguintes, foi mãe mais 5 vezes, tendo sido abençoada por não ter perdido nenhum filho - algo pouco comum à época.

 

Quando a filha mais velha terminou a 4ª classe, MC foi chamada à escola. Era uma pena aquela menina não ir estudar, disse-lhe a professora. E MC voltou ao passado, que não quis repetir.

Convenceu o marido a deixar a filha estudar. Na verdade, a filha mais velha e todos os outros. Uma decisão nada fácil, para dois operadores fabris. Eram um caso raro para quem vivia numa aldeia e numa família daquele nível de posses, em que todos os 6 filhos estudaram até onde quiseram. Em boa verdade, alguns quiseram desistir antes mas MC não deixou que abandonassem a escola antes de terem um curso (naquele tempo, um curso profissional, que fosse).

A mais velha, essa, continuou os estudos até ao ensino superior, tornando-se professora do ensino primário (mais tarde, viria a tirar a licenciatura em Português / Francês e seguido para a docência no ensino secundário).

 

O tempo viria a ditar como aquela decisão havia sido acertada, pelo acompanhamento que aquela filha lhes pode dar nos últimos (e não tão últimos) anos, por ter um emprego que lhe permitia manhãs ou tardes livres.

O tempo viria a ditar como aquela decisão, de orientar toda uma vida para benefício dos filhos, lhes havia de trazer frutos pelo carinho e amor que todos eles lhes tinham.

 

MC teve uma vida de cumplicidade com a sua cara metade (tão óbvia que não passava despercebida a ninguém) e um amor dos filhos como poucas mulheres do seu tempo se podem gabar.

MC foi feliz, apesar da recusa do pai (ou, se calhar, um pouco por causa dela).

 

 

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