Muitas vezes pergunto-me: esta pessoa à minha frente, perante a Anne Frank, escondia-a ou denunciava-a? Se dividirmos o mundo assim - pessoas que teriam ajudado uma menina judia e pessoas que a teriam repudiado com medo dos nazis ou mesmo por solidariedade com a praga mental dos mesmos - a complexidade sobre a ética, moral e coragem dos outros - e nossa - adquire contornos porventura demasiado complexos.

Existem pessoas que se dizem pouco corajosas fisicamente e que, numa situação de extrema importância, se revelam maiores, gigantes, capazes de tudo para defender alguém ou uma ideia. Outras nem tanto. Pactuar é mais simples; acomodar e não querer ver mais simples ainda é. Vamos não nos meter nisso? O medo, o medo de ser igualmente atacado, de não ser capaz de superar o nosso pedaço egoísta, protegido e pequenino.

E tudo isto serve para reconhecer a minha imensa cobardia, dupla cobardia, aliás, por ser a segunda vez que assisto à mesma situação atroz.

Passo a explicar: pela segunda vez, hoje, vi o mesmo casal a discutir na rua. Ela de olhos baixos, ele a gesticular, imenso, aos gritos e com inúmeras palavras ofensivas umas atrás das outras. É sabido que as agressões às mulheres são o pão nosso de cada dia, que o crime em ascensão contínua é a violação, que em Portugal já foram mortas mais de duas dezenas de mulheres desde o início do ano. Eu denuncio, exponho, subscrevo acções, mas desta vez fiquei a ver a situação de violência na paz e segurança do meu carro, sem saber o que fazer, entre a vontade de sair e gritar com o indivíduo e o medo de ser igualmente agredida.

Há cerca de dois meses, tinha vivido exactamente o mesmo: aquele casal infeliz na rua, ele aos berros com ela, ela de olhos no chão, ele a agarrar-lhe o antebraço. Estavam sozinhos. Hoje tinham com eles uma criança de seis ou sete anos de idade. O homem não agarrou no antebraço da mulher, limitou-se a gritar "és uma merda, és uma desgraça", virou o corpo e entrou num carro estacionado ali perto. Eu considerava telefonar à polícia, ele já se afastava com uma velocidade acima do previsto pela lei. Imagino que a lei o perturbe pouco. A criança e a mãe ficaram ali no passeio. A mãe, deduzi que fosse a mãe, passou-lhe a mão pelo cabelo e começaram a andar. Eu senti-me a pessoa mais cobarde do mundo.

 

E tu? Achas que farias diferente?