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A Vida da Gorduchita

A Vida da Gorduchita

19
Jun17

"Quem planta tamareiras, não colhe tâmaras"

«Diz um antigo ditado árabe, que “Quem planta tamareiras, não colhe tâmaras”, baseado no facto de que, antigamente, as tamareiras demoravam entre 80 a 100 anos para dar fruto.

Conta a lenda que, um dia, um jovem aproximou-se de um idoso que estava a plantar tamareiras no deserto e lhe perguntou: “Mas por que o senhor perde tanto tempo plantando o que não irá colher?” O senhor virou a cabeça e calmamente respondeu: “Se todos pensassem assim, ninguém no mundo jamais colheria tâmaras. Se hoje sei o sabor da tâmara é porque um dia alguém plantou uma tamareira”.


Hoje em dia, com o avanço da engenharia genética, uma tamareira gera frutos entre dois e quatro anos, mas o ditado continua a servir para sustentar que não podemos apenas “plantar” aquilo que sabemos que vamos “colher”.

Numa era de imediatismo, é preciso saber gerir aquilo que tem impacto para além do nosso tempo aqui na Terra.

 

Falo disto (não só, mas também) a propósito dos incêndios que assolaram o nosso país neste último mês de Agosto. Porquê? Porque são, além de outras razões também importantes, fruto de uma gestão danosa da nossa floresta, baseada nos resultados imediatos (em linha com a economia de curto prazo vigente atualmente).

Os interesses da indústria do papel fez do eucalipto a árvore preferida na hora da reflorestação. Os donos dos terrenos viram nisso uma oportunidade de negócio (porquê esperar dezenas de anos que um carvalho ou um castanheiro cresça, quando em 4-5 anos temos eucaliptos crescidos e aptos a serem cortados e utilizados?).

E os governos foram sendo cada vez mais permissivos com o alastramento desta espécie no nosso território.

Esta aposta no eucalipto tem-se provado ruinosa para a nossa floresta (na Austrália, seu país de origem, há quem lhe chame Gasoline Tree (Árvore Gasolina) e, por si só, este nome diz tudo), mas poucos querem tomar medidas que não tenham retorno a curto prazo (porque é só no curto prazo que sabemos viver, nos dias que correm).

 

Há felizmente exceções, como o Projeto das 100 mil árvores na Área Metropolitana do Porto, que se propõe “reabilitar aproximadamente 100 hectares de floresta urbana através da plantação e cuidado de 100.000 árvores e arbustos nativos da região” (em http://www.100milarvores.pt/porque).

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A aposta deste projeto está na diversificação da floresta, com espécies nativas, porque “está cientificamente demonstrado que as florestas de monocultura são mais suscetíveis aos incêndios do que as florestas mistas. Por isso, criar áreas de floresta nativa diversifica a massa florestal e dificulta a propagação do fogo.” Além disso “sabe-se, através de estudos científicos, que num bosque nativo dominado por carvalhos ocorrem 30-35 espécies de aves nidificantes, enquanto num eucaliptal não se encontram mais de 13”. Só vantagens, portanto! 

Foram já plantadas mais de 63500 árvores. Ainda faltam algumas. Por isso, se possuir um terreno na Área Metropolitana do Porto e deseja reflorestá-lo com espécies autóctones, pode propor-se aderir.
É um projeto extraordinário embora os frutos se vão demorar a ver. Mas é preciso que pensemos mais assim: a longo prazo.

 

Porque, como diz o ditado índio: “Não herdamos a terra dos nossos pais, pedimo-la emprestada aos nossos filhos”.»

 

NOTA:

Escrevi este texto há quase um ano, em Setembro de 2016, para um jornal local com que colaboro (de 2 em 2 meses), com artigos de opinião.

Lembrei-me dele, fruto da tragédia que assola (assolou) o nosso país neste fim de semana. Continua verdadeiro... Continua a ser precisa outra gestão florestal (muito mais do que mais meios para combater incêndios).

 

 

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