Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Vida da Gorduchita

A Vida da Gorduchita

12
Jan18

#metoo

O post que eu gostava de ter escrito sobre o assunto (apesar de o primeiro parágrafo não se me aplicar assim lá muito):

 

Não vamos cá de modas:  eu também já estive do outro lado da barricada, defendendo e argumentando que não havia pachorra para a histeriazinha colectiva do politicamente correcto do feminismo. Depois, deixei de comer gelados com a testa, que é como quem diz provi-me de algum bom senso, pesquisei, fui ler quem percebe da poda, pesquisei artigos sociológicos, assisti a tedTalks, li livros e colunas de opinião, perguntei,  contrapus e rodeei-me de pessoas mais informadas e esclarecidas que eu na matéria, quis conhecer de perto os seus argumentos e motivações e aprendi. 
Aprendi que a minha filha não tem que viver numa cultura paternalista em que perguntam ao pai dela (nunca à mãe), assim que anunciamos o sexo dela ainda na barriga um "então, já compraste a caçadeira? " como se à Ana estivesse a aguardar um destino de fragilidade e indefesa, de dependência da figura paternal masculina para a defender,  que perpetuam essa ideia quando a "elogiam" com um "ui, com esses olhos e essa carinha vais dar muitas dores de cabeça ao teu pai" como se a beleza fosse uma sentença, como se a beleza fosse um karma de  "ai meus Deus, coitado do teu pai que vai ter que lidar com os impulsos descontrolados e não refreados dos homens que não vão resistir a mandar-te piropos, a tentarem apalpar-te no recreio da escola, a tentarem engatar-te, que triste sina a tua, a de seres objectos de desejo passivo e indefeso, ainda bem que tens pai, mas coitado, o trabalho que vai ter contigo...". 
Aprendi que a minha filha não tem que levar com os comentários do "esgrima? Mas tu és tão feminina e não praticas um desporto de meninas?";  que não tem que receber diariamente como principal elogio um "és tão bonita, Ana!" invés de "és tão esperta! és tão valente! és tão generosa! és tão corajosa! és tão rápida a correr"; que "as meninas não se sentam de pernas abertas", que "as meninas não dizem asneiras", que "as meninas não", "as meninas não" (as meninas não o caralhinho, tá?); que não tem que ouvir "mulher no volante, perigo constante" quando tirar a carta e achar isso normal; que não tem que mamar com a puta do "a conversa já chegou à cozinha?" sempre que decidir opinar sobre um assunto no meios dos homens, mesmo que a brincar, metam estas brincadeiras no olho do cu a fazer caretas; que não tem que crescer a aceitar que lhe ponham a mão à volta da cintura enquanto lhe abrem a porta tocando-lhe no corpo sem autorização sob o pretexto do cavalheirismo; que não tem que pensar no que deve vestir quando sair à rua sozinha: que não tem que se sentir lisonjeada quando desperta as "atenções masculinas" pelas formas do seu corpo; que não tem que ouvir piropos nojentos e ordinários e calar-se porque "mulher séria não tem ouvidos";  que não tem que ouvir "deve ter subido na horizontal" quando conseguir uma promoção no posto de trabalho,: que não tem que ganhar um salário mais baixo que os homens que desempenham a sua categoria profissional só porque nasceu com um pipi; que não deveria ter acesso a cargos de liderança em empresas públicas "por favor" e via cotas ao invés de apenas por competência provada; que não tem que ler nas notícias que uma mulher foi violada porque saiu de mini-saia à noite e embebedou-se e que por isso "estava mesmo a  pedi-las"; que se lhe apetecer viver a sua sexualidade como bem lhe entender não tem que ser chamada de puta;  que não tem que abrir o jornal e todos os dias ler notícias de violência doméstica contra as mulheres; que não tem que se achar com "sorte" porque o homem que escolher para compartilhar a vida a "ajuda" nas tarefas domésticas como se a agente principal das tarefas domésticas fosse ela por inerência e ele apenas "coadjuvante"; que se se insurgir face a qualquer coisa não tem que ser apelidada de "mal fodida"; aprendi que a minha filha não tem que viver num Mundo onde "atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher", que ela não tem que ficar atrás de ninguém,lado a lado é que se fazem as grandes lutas; que não tem que ouvir "estás histérica ou quê? estás com o período?" quando estiver irritada/indignada/farta; que não tem que assistir a alguém a dirigir-se ao seu parceiro com um "eh lá, a tua mulher é brava, já estou a ver que é ela quem veste as calças lá em casa"; que não tem que ser refém da cultura do corpo perfeito ou do que quer que seja perfeito; que não tem que adiar a maternidade se quiser ter sucesso profissional ou apenas manter o emprego; que não tem que achar normal aquilo que mulheres ao longo de séculos (eu também) fomos ensinadas a normalizar. 
 
 
 
 
Retirado do blog Quadripolaridades.

7 comentários

Comentar post